Os mapas pioneiros de Alexander von Humboldt

Lindas e perspicazes, as ilustrações do naturalista alemão ajudaram a moldar uma nova compreensão do mundo


Por Greg Miler



O naturalista e explorador alemão Alexander von Humboldt foi um dos mais célebres cientistas do século XIX. Em 1869, no 100° aniversário de seu nascimento, 25.000 pessoas se reuniram no Central Park de Nova York para ouvir discursos exaltando suas realizações e testemunhar a inauguração de um grande busto de bronze de Humboldt, que havia morrido dez anos antes. Bandeiras e cartazes enormes mostrando o rosto de Humboldt cobriam as ruas de Manhattan. Celebrações semelhantes ocorreram em todo o mundo – em Berlim, cidade natal de Humboldt, 80.000 admiradores se reuniram na chuva fria para ouvir elogios e canções cantadas em sua homenagem.


É difícil imaginar qualquer cientista moderno alcançando tal celebridade, e agora, 250 anos após seu nascimento, o próprio Humboldt foi em grande parte esquecido pelo público em geral. Mas, como a historiadora Andrea Wulf escreveu em sua biografia de 2015 de Humboldt, The Invention of Nature, seu legado científico vive em dezenas de características geográficas e nomes de lugares, de uma geleira na Groenlândia a uma cadeia de montanhas na Antártida (O estado de Nevada foi quase chamado de Humboldt, escreve Wulf). Os nomes latinos de cerca de 300 plantas e mais de 100 animais prestam homenagem a ele, incluindo a agressiva e predadora lula Humboldt, que pode crescer até 2,5 metros de comprimento e pesar 45 Kg.


A principal contribuição científica de Humboldt foi perceber a interconexão entre clima, geografia, natureza e sociedades humanas. Suas ideias foram revolucionárias para o século 19 e permanecem relevantes até hoje para os cientistas que estudam os efeitos das mudanças climáticas. Na próxima primavera (NT: a reportagem é de 2019), o Smithsonian American Art Museum abre uma nova exposição “Alexander von Humboldt e os Estados Unidos: Arte, Natureza e Cultura”. Examinando as influências transformadoras do naturalista.



O que muitas vezes é omitido, no entanto, nas discussões sobre o legado científico de Humboldt é o papel que seus mapas pioneiros e ilustrações científicas desempenharam na formação de seu pensamento. Ao criar visualizações de dados que antes eram agrupadas em tabelas, Humboldt revelou conexões que que tinha escapado a outros, diz a historiadora Susan Schulten, da Universidade de Denver. “Ele é realmente um pensador visual”, diz ela.


Segundo Schulten, Humboldt foi um dos primeiros cientistas a usar mapas para gerar e testar hipóteses científicas. Um exemplo foi o uso do que ele chamou de linhas “isotérmicas” para indicar regiões do globo com a mesma temperatura média. Essas linhas são onipresentes nos mapas meteorológicos de hoje, e parecem tão óbvias que as damos como certas. Mas quando Humboldt publicou um mapa utilizando-as em 1817, isso fez com que os cientistas repensassem a suposição amplamente aceita de que a temperatura média de uma região depende principalmente de sua latitude. As linhas isotérmicas no mapa de Humboldt tinham altos e baixos que se desviavam das linhas de altitude. Isso levou ele e outros cientistas a procurar explicações e, eventualmente, levou a uma compreensão de como as correntes oceânicas, as cadeias de montanhas e outras características da geografia contribuem para os climas locais.



Outra das ilustrações inovadoras de Humboldt resultou de sua viagem de cinco anos à América Central e do Sul com o botânico francês Aimé Bonpland. Em 1802, Humboldt e Bonpland subiram o Chimborazo, um vulcão logo abaixo do equador que se acreditava na época ser a montanha mais alta do mundo (com 6,36 km, ele é mais de 2,4 km menor do que o Monte Everest). A dupla documentou a vida vegetal da montanha, desde a floresta tropical em sua base até o líquen agarrado às rochas acima da linha das árvores. A imagem abaixo, que Humboldt chamou de Tableau Physique na versão francesa de sua publicação original, organiza essas observações de forma intuitivamente visual, mostrando o Chimborazo em corte transversal, com um texto indicando quais espécies viviam em diferentes altitudes na montanha.



Colunas de texto em ambos os lados da seção transversal do Chimborazo indicam precipitação, umidade e outras medidas que Humboldt fez em várias elevações. “Ele está tentando pensar em como todos esses elementos da paisagem se encaixam e colidem uns com os outros”, diz Schulten. Em contraste com os cientistas antes dele que utilizaram mapas e ilustrações principalmente para descrever e resumir suas descobertas, Humboldt usou suas visualizações para procurar explicações, diz ela.


O atraente Tableau de Humboldt pegou rapidamente e inspirou muitas imitações. A ilustração abaixo do cartógrafo escocês Alexander Keith Johnston, que apareceu em um atlas de 1850, retrata a distribuição de plantas em diferentes elevações para várias cadeias de montanhas, incluindo os Andes, o Himalaia e os Alpes. Ele expande a ilustração do Chimborazo de Humboldt, mostrando como as zonas habitadas por diferentes espécies variam de acordo com a latitude, bem como com a elevação.



Nos últimos anos, duas equipes de cientistas tentaram usar o Tableau de Humboldt como referência histórica para comparar com pesquisas mais recentes sobre o Chimborazo. À medida que o clima global aqueceu, o habitat de muitas espécies de plantas deslocou-se para altitudes mais elevadas em regiões montanhosas, e o Tableau de Humboldt apresenta uma rara oportunidade de comparara a distribuição moderna de espécies com sua distribuição há dois séculos atrás, exatamente quando a Revolução Industrial – e a geração de gases de efeito estufa em escala industrial – estava começando.


Só que não é tão simples assim, uma das equipes relatou recentemente no Proceedings of the National Academy of Sciences. Os pesquisadores reexaminaram os diários de Humboldt e concluíram que muitas das espécies que ele incluiu na parte superior de sua ilustração do Chimborazo foram observadas em um vulcão próximo, o Antisana. Os pesquisadores veem suas descobertas como um alerta sobre utilizar o Tableau de Humboldt muito literalmente ou assumir que ele atende aos padrões de rigor científico do século XXI. Mesmo assim, quando os pesquisadores compararam o Tableau com pesquisas recentes sobre o Antisana, descobriram que as espécies de plantas haviam subido a montanha 200 a 300 metros acima desde a época de Humboldt, consistente com a taxa de mudança que os cientistas observaram em outras partes do mundo.


“Assim, o Tableau é tanto ficção quanto fato, um trabalho em andamento, uma tentativa de ilustrar padrões gerais de distribuição de plantas nos picos equatoriais da América do Sul”, escreveu o ecologista norueguês Geir Hestmark em um comentário que acompanha o artigo da PNAS.


Humboldt continuou a revisar sua ilustração do ‘Tableau’ do Chimborazo, e algumas das espécies representadas em altitudes mais altas nesta ilustração de 1824 do vulcão diferem daquelas no original.
Humboldt continuou a revisar sua ilustração do ‘Tableau’ do Chimborazo, e algumas das espécies representadas em altitudes mais altas nesta ilustração de 1824 do vulcão diferem daquelas no original. David Rumsey Map Collection, David Rumsey Map Center, Stanford Libraries

Apesar de suas deficiências, o uso de mapas por Humboldt como ferramentas de exploração científica o colocou na vanguarda de uma revolução na cartografia do século 19, escreve Schulten em seu livro de 2012, Mapping the Nation. A maioria dos mapas até então eram representações literais de um lugar, retratando seus rios, cadeias de montanhas, cidades e outras características físicas. Humboldt e outros se afastaram dessa tradição usando mapas para explorar a geografia de outras coisas menos visíveis. Enquanto os interesses de Humboldt se concentravam no clima e na distribuição de plantas e animais, outros começaram a mapear a distribuição de doenças, pobreza e outros aspectos da condição humana.


Além de sua história intelectual, a estética dos mapas e ilustrações de Humboldt continuam a inspirar os cartógrafos de hoje. Rosemary Wardley, geógrafa e cartógrafa da National Geographic, diz que admira as ilustrações de Humboldt porque elas podem ser apreciadas em vários níveis. “Como geógrafo e cartógrafo esse é o seu ideal, você quer fazer algo que seja acessível para todos os tipos de pessoas, mas que tenha um nível extra de detalhes para aqueles que querem se aprofundar mais”, diz Wardley. “Se algo chama a atenção, atrai as pessoas e as leva a pensar em algo em que não estavam interessadas antes”.


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Fonte: https://www.smithsonianmag.com/history/pioneering-maps-alexander-von-humboldt-180973342/


Publicado na Página Curiosidades Cartográficas do Facebook em: https://www.facebook.com/curiosidadescartograficas/posts/pfbid02AkRnAHNzwJ3YWWAnVy3ZCkmekrpdLFw9RhgUrqqtLtGhevrjXGHAjAyK5j1TM4Ttl

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