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Quando o Império Otomano ameaçou a Europa - e o mundo

Por Ian Morris


Mapa do Império Romano, 1570
Mapa do Império Romano, 1570 - Everett Collection Historical, via Alamy

A sombra de Deus: O Sultão Otomano que moldou o mundo moderno

Alan Mikhail



Ao chegar a costa mexicana do Pacífico em um dia de verão em 1573, um comerciante chamado Pero Ximénez viu algo notável - “navios”, disse ele as autoridades coloniais espanholas, “de turcos ou mouros”. Certamente havia algum engano. Mas, apenas algumas semanas depois, chegou o relatório de “sete vassalos do Grande Turco, todos homens do mar, os espiões dos príncipes”, caminhando destemidos ao redor da praça da cidade de Purificación. Enviado para investigar, o Agente da Coroa da Espanha concluiu que “turcos ou mouros” estavam de fato conspirando com os nativos americanos para derrubar o domínio cristão.


O que parece tolice hoje - turcos invadindo o México - não parecia ser assim em 1573. Quando os espanhóis navegaram as 13.000 milhas (20.921 km) de Cádiz a Java, eles encontraram muçulmanos por todo caminho. Seria realmente tão tolo suspeitar que o Islã também cruzou o Pacífico? Hoje sabemos que os únicos muçulmanos nas Américas eram os escravos da África Ocidental que a Espanha importava desde 1501, mas os conquistadores nunca tinham certeza. Hernan Cortés afirmou ter visto mais de 400 mesquitas durante a guerra contra os astecas.


Em “God´s Shadow” (A sombra de Deus), Alan Mikhail, um importante historiador da Turquia otomana, faz duas afirmações. A primeira, e menos controversa, é que os cristãos do século XVI viram tudo, inclusive as Américas, pelas lentes de sua luta contra o Islã. Quando Colombo cruzou o Atlântico em 1492, o mesmo ano em que os governantes da Espanha destruíram o último reino muçulmano da Península Ibérica, ele garantiu a seus patronos reais que suas viagens eram meramente continuações de sua cruzada anti-islâmica. Seu objetivo ao chegar à Ásia era encontrar o Grande Khan mongol (que se acreditava ser pró-cristão) e convencê-lo a fazer um grande ataque a Jerusalém. Mesmo quando os espanhóis perceberam que as terras do outro lado do Atlântico eram um Novo Mundo, e não a Ásia, o hábito de vê-las em termos turcos mostrou-se difícil de abanbdonar. Muitos conquistadores mataram turcos no Mediterrâneo e, depois de massacrar os astecas e incas, muitos voltaram para casa para lutar mais um pouco contra os turcos. Não devemos nos surpreender que tantos achem que lutar contra os infiéis de pele escura na América é o mesmo que lutar contra eles na Europa, Ásia ou África.


God Shadow” está repleta de detalhes sobre este encontro transcultural, mas seu aspecto mais impressionante é a segunda afirmação de Mikhail: que “o Império Otomano fez nosso mundo moderno”. Ele chama seu livro de “um relato revisionista ... demonstrando o papel constituinte do Islã na formação de alguns dos aspectos mais fundamentais da história da Europa, das Américas e dos Estados Unidos”. A partir disso, ele diz, “surge uma nova e ousada história mundial que derruba os mitos que prevaleceram por um milênio. Quer os políticos, especialistas e historiadores tradicionais gostem ou não, o mundo em que habitamos é muito otomano”.


Selim, o cruel (1467-1520)
Selim, o cruel (1467-1520) - Pictorial Press Ltd, via Alamy

Esse é um argumento forte, embora, de certa forma, os historiadores tradicionais possam concordar. Quase todos aceitam que as altas taxas que os turcos cobraram das caravanas que transportavam produtos de luxo asiáticos através de seu império encorajaram os europeus a construir navios melhores e encontrar rotas marítimas para a Índia. Dizer isso, no entanto, não prova que o Império Otomano foi uma condição suficiente ou necessária para a construção de nosso mundo moderno; isso requer fazer a pergunta contrafactual (que realmente não pode ser respondida) sobre o que os europeus teriam feito se o Império Otomano nunca tivesse existido. Os pedágios turcos e a agressão militar incentivaram os ibéricos do século XV a investir em novos tipos de navios, mas devemos presumir que, sem os otomanos, os europeus nunca teriam começado a construí-los? Sem o islã, Colombo provavelmente não teria navegado para o oeste em 1492; mas apenas oito anos depois, Pedro Cabral esbarrou no Brasil de qualquer maneira, ao tentar pegar os ventos para levá-lo ao redor o extremo sul da África. O comércio marítimo com a Índia teria sido mais lucrativo do que a rota terrestre, mesmo que esta última fosse isenta de impostos; então, realmente não teria havido Cabral sem os otomanos? Ou o papel da Turquia na conquista das Américas pela Europa foi apenas para acelerá-la em alguns anos?


Mikhail evita tais conjecturas e, em vez disso, apresenta seu caso dedicando a maior parte de seu livro a um relato biográfico de Selim, o Cruel (que reinou entre 1512-20), um sultão otomano particularmente aterrorizante que assassinou seus meio-irmãos (o que era, reconhecidamente, um comportamento sultânico normal) e depôs e provavelmente assassinou seu pai (o que não era). Selim também conquistou tudo, da Síria à Argélia, e infligiu uma derrota devastadora à Pérsia. Mikhail às vezes se esforça para integrar essa história de forma harmoniosa com sua história dos espanhóis na América; talvez haja muitos detalhes nas campanhas de Selim, e algumas das ligações, como os paralelos que Mikhail traça entre a morte de Selim e a de Montezuma (ambas em 1520), parecem tensas. No entanto, a história é sempre interessante. Quem não gostaria de saber sobre a história do café iemenita ou dos lutadores de azeite de oliva de Edirne?


Mikhail baseia-se nessa narrativa para sugerir que a contribuição de Selim para a construção de nosso mundo moderno foi muito além de apenas incentivar os europeus a cruzarem os oceanos. Pero Ximénez apenas imaginou ver navios turcos na costa mexicana, mas, acredita Mikhail, Selim chegou perto de enviá-los para lá. Em 1518, ele parecia prestes a invadir todo o Norte da África. “Se Selim tivesse capturado o Marrocos”, diz Mikhail, “ele teria completamente reformulado a história do mundo”, porque “se o Marrocos se tornasse otomano, a sombra de Deus poderia se estender até o Atlântico - e talvez até cruzar aquele oceano”.


Mikhail lê isso em duas das anedotas que conta sobre o sultão cruel. A primeira descreve o capitão otomano Piri Reis mostrando a Selim o primeiro mapa vagamente realista do mundo em 1517. A história diz que Selim rasgou o mapa em dois, mantendo a peça que mostrava o Velho Mundo, mas devolvendo a do Novo Mundo a Piri. A segunda história, porém, diz que três anos depois, um intérprete chamado Ali Bey apresentou a Selim outro mapa-múndi. Dessa vez, em vez de parti-lo em dois, o sultão mandou uma secretária riscar todos os nomes italianos e latinos e substituí-los por nomes turcos. “Certamente”, conclui Mikhail, “Selim agora imaginava que praticamente todos os território na porção oeste do mapa de Piri - a metade que sobreviveu, a metade que ele escolheu ignorar anteriormente - poderiam ser dele (...) Ele pretendia tornar o mundo inteiro otomano”.


Quatro meses depois, Selim estava morto, então nunca saberemos. Mas se Alan Mikhail não tivesse escrito “God´s Shadow”, suspeito que poucos de nós sequer teriam feito essa pergunta. O maior elogio a um livro de história é que ele o faz pensar sobre as coisas de uma maneira nova.








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