O Atlântico nos mapas antes da conquista da América



Antes da conquista da América, o Atlântico cumpria uma função fundamental de fronteira. Era uma espécie de fronteira líquida gigantesca entre o que era conhecido e o vazio, a escuridão absoluta.


Precisamente, um seminário internacional abordará esta semana (NT: a reportagem é de fevereiro de 2018), na Universidade de La Laguna (Tenerife), o tratamento do Atlântico e das suas ilhas no contexto medieval.


No Simpósio, que acontecerá nos dias 27 e 28 de fevereiro, diversos palestrantes, tanto de La Laguna quanto da Espanha e internacionais, vão falar sobre a ideia desse oceano na Idade Média sob diferentes perspectivas



Detalhe do mapa-múndi de Hereford

A verdade é que esta parte do mundo foi uma referência fundamental para os confins da terra, que está além dos limites do conhecido.


A visão do Atlântico naquela época correspondia à relação que temos hoje com o espaço sideral: algo enorme, incomensurável para nós, algo que exerce uma grande atração, mas que nem todos estamos dispostos a enfrentar.


Quanto aos mapas do Ocidente medieval, como todos eles seguem, em maior ou menor grau, os preceitos teóricos de autoridades como Isidoro de Sevilha, Orósio, Macrobio, etc., podemos encontrar uma representação mais ou menos contínua do oceano.


Na verdade, é um dos elementos que mais claramente relacionam as diferentes correntes representativas do mundo entre si. Principalmente os mapas TO da tradição Isidoriana e a representação zonal ou climática herdada de Macrobius que, por sua vez, coleta e adapta o patrimônio clássico, como fez Isidoro.


Em ambos, o Oceano envolve a orbe como um anel, e no caso do Atlântico entra violentamente pelas Colunas de Hércules (atual Estreito de Gibaltar), considerada, segundo alguns autores, como a entrada para o Atlântico. Os mapas a seguir exemplificam graficamente o papel do Atlântico nesta concepção.


Mapa-mundi Liber Floridus de Lambert de St. Omer Existem várias versões deste mapa, mas aquela mantida na Herzog August Bibliothek, em Wolfenbüttel é de especial interesse. Ela faz parte do Liber Floridus, uma obra enciclopédica bastante importante na época.

Nesta versão, feita por volta do ano 1150, é muito clara a relação entre o Atlântico, os limites do mundo conhecido e as ilhas que o compõem. As ilhas pontuam o Atlântico como referência fundamental. Também interessante é a menção gráfica de um quarto do mundo que ocupa uma página inteira.

Mapa-múndi Libre Floridus, de Lambert de St. Olmer.


Mapa-múndi de Munique

Se trata de um mapa-múndi preservado na Bayerische Staatsbibliothek, de Munique, que segue as ideias geográficas apresentadas por Marciano Capella e posteriormente Hugo de San Víctor.

Aqui vemos uma representação do Atlântico marcada pelas ilhas que o compõe. Aparecem a Hibernia - atual Irlanda -, Escócia e Inglaterra, as Ilhas Afortunadas, etc.

Mapa-múndi de Munique

Mapa de Hereford


Este é um dos mapas mais conhecidos, projetado por volta de 1291 e atualmente preservado na Catedral de Hereford (Inglaterra). Trata-se de um mapa extremamente complexo em termos de conteúdo.


No nosso caso, o seu interesse reside, entre outros aspectos, no fato de ser a primeira vez que vemos graficamente uma referência atlântica de grande importância: A ilha de San Brandán e o seu papel como uma das Afortunadas, algo mencionado na teoria de Honório de Autun algum tempo antes.

Mapa de Hereford

Portulano de Dulcert

Produzido por Angelino Dulcert em 1339. A essência deste mapa é que ele exemplifica uma nova visão do Atlântico, a dos Portulanos, baseada na experiência e num sentido empírico de representação cartográfica.


Pouco a pouco, os limites ocidentais da ecúmena vão se tornando conhecidos. Já vemos a inclusão, por exemplo, das ilhas mais orientais do arquipélago das Canárias: Lanzarote e Fuerteventura, as primeiras a serem visitadas no contexto pré-moderno.



Portulano de Dulcert

Atlas Catalão de Cresques


Uma referência indiscutível. Projetado em 1375 e mantido na Biblioteca Nacional da França, ele mostra o Atlântico com um amálgama de influências clássicas tardia, medievais e modernas.



Atlas Catalão. Cresques Abraham. 1375. Fonte: Wikipédia

O oceano continua sendo o cenário de históricas lendárias, mas insere novas “descobertas” através do antigo filtro.


Assim, já representa as Afortunadas de uma forma mais realista, mas ainda citando Plínio e Isidoro como referências. Um pouco mais ao sul, vemos Jaume Ferrer cruzando o Atlântico em busca do Rio de Oro.


Este é um exemplo de algo fundamental na mentalidade medieval e pré-moderna: a constante inter-relação entre o que consideramos “real” e “imaginário”.

Detalhe do Atlântico com o sudoeste da Península Ibéria e Noroeste da África

São conceitos que nós, no nosso tempo, diferenciamos de forma relativamente clara. Mas, nesse contexto, eles compartilhavam o mesmo nível de abordagem, sem o qual não podemos compreender não apenas a geografia medieval, mas também o mundo e a vida cotidiana na Idade Média.


Atlas de Vesconte de Maggiolo

Cronologicamente, nos foge um pouco, já que é do ano 1511. Mas é interessante ver a mudança que sofre a representação do Atlântico, e que é o reflexo de uma mudança fundamental de atitude.

O Atlântico já não é um limite, mas uma fronteira. Uma parada para o Novo Mundo. Isso explica porque agora ele aparece no centro do mapa, com grande destaque, o que reflete a importância do Atlântico no desenvolvimento da história.



Atlas de Vesconte de Maggiolo

Carta Marina de Olaus Magnus


Embora o Atlântico já estivesse muito sulcado e cada vez mais conhecido, a memória das ameaçadoras feras marinhas ainda estava muito presente.



Carta Marina de Olaus Magnus

Aqui, o bispo Olaus Magnus representa um Atlântico Norte crivado de criaturas estranhas e perigosas. Muitas delas parecem confundidas com animais marinhos reais avistados por marinheiros. É um bom exemplo da força da tradição no processo de redescoberta do Atlântico.

#curioisdadescartograficas



Fonte: https://www.geografiainfinita.com/2018/02/asi-era-visto-el-atlantico-antes-de-la-conquista-de-america/


Publicado na página Curiosidades Cartográficas do Facebook em: https://www.facebook.com/curiosidadescartograficas/posts/1718097991717061


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