11 mapas que queriam mudar nossa maneira de ver o mundo

Nenhum mapa é inteiramente objetivo, mas estes nunca tiveram a intenção de sê-lo.


Por James Rubio Hancock


O advogado Americano PJ Mode começou a colecionar mapas em 1980. Depois de alguns anos, ele percebeu que estava particularmente interessado naqueles que “tinham a intenção de enviar ou reforçar uma mensagem, em vez de comunicar informações geográficas objetivas”. Ele acabou com uma coleção de 800 documentos que doou para a Universidade Cornell, nos Estados Unidos. Esta Coleção de Cartografia Persuasiva pode ser consultada não apenas na biblioteca, mas também pela web.


Nenhum mapa fornece uma visão inteiramente objetiva da realidade. Por exemplo, a projeção de Mercator, a mais conhecida, distorce os tamanhos dos países à medida que se afastam do equador. Mas os mapas têm um propósito específico: no caso dessa projeção do século XVI, seu propósito não era nos fazer acreditar que a Groenlândia é tão grande quanto a África, mas sim que era muito útil para a navegação, pois mantém as rotas marítimas em linhas retas.


Projeção de Mercator.
Projeção de Mercator. Strebe / Wikipedia

Mesmo assim, um mapa, como um gráfico ou uma fotografia, muitas vezes dá uma imagem de objetividade que tem sido usada para transmitir mensagens de propaganda. Na coleção Mode há exemplos de mapas usados em guerras e para defender o nacionalismo e o imperialismo. Embora eles também tenham sido utilizados para a sátira, publicidade comercial e, é claro, para comunicar efetivamente ideias muito mais amáveis. Aqui estão 11 exemplos.



1. O polvo russo


O “mapa sério-cômico da Guerra do ano de 1877” é obra do britânico Frederick W. Rose. A Rússia aparece nele como um polvo gigante que ameaça o resto dos países da Europa. Ele foi publicado dois meses após o ataque da Rússia ao Império Otomano, que foi em resposta ao massacre turco de cristãos búlgaros (mostrado como uma caveira no mapa).


No mapa do polvo há alguns estereótipos: na Alemanha aparece o Kaiser, a Inglaterra é um empresário com as colônias debaixo do braço e a Espanha está dormindo. E depois há Portugal, que é representado como uma criança, numa imagem que era comum neste tipo de mapas satíricos.



2. Portugal não é tão pequeno


Portugal tem sido muitas vezes visto como um país pequeno e inofensivo, portanto não é de estranhar que em algum momento da sua história tenha querido se afirmar. Na verdade, em 1934 ele era maior do que se poderia pensar. Pelo menos segundo este mapa de Henrique Galvão, que pretendia apoiar as ambições imperialistas do ditador Antonio de Oliveira Salazar e assim mostra a extensão das colônias portuguesas num mapa da Europa.



3. Um mapa geral dos Domínios Britânicos


Embora seja um exemplo de imperialismo, este mapa de 1868 mostra as posses do Império Britânico. Conforme explicado no site da coleção, o mapa “aumenta o tamanho aparente do Império Britânico, apresentando 450 graus de longitude, com Austrália e Nova Zelândia mostradas duas vezes”.



4. O que a Alemanha quer


Segundo o próprio P.J. Mode escreve em um artigo publicado na revista da Washington Cartographic Society, a guerra é um dos temas mais comuns nesses mapas. Eles procuram desmoralizar o inimigo e expor a justiça da causa tanto para a própria nação quanto para países neutros. A Primeira Guerra Mundial também seguiu um período de progresso na cartografia, que levou os países a “competir na produção de mapas persuasivos”, muitas vezes “por meio de agências estatais de propaganda recém-fundadas”.


Um exemplo é este mapa britânico de 1917 que mostra “o que a Alemanha quer”, ou seja, suas reivindicações territoriais, com base em declarações de líderes alemães mais ou menos conhecidos. Mode mostra como a legenda é colocada sobre a Sibéria, de modo que mostre menos branco no mapa. Também é significativo que seja enquadrado de forma que grande parte da América seja deixada de fora.



5. Os portadores da nova peste negra


Este mapa anterior à Segunda Guerra Mundial é uma crítica ao totalitarismo e uma defesa da liberdade de expressão. Os países sob ditadores aparecem em preto, caricaturados e ridicularizados com um qualificativo no texto na parte inferior do mapa. Hitler é um goblin (como um duende, só que mais feio) e Stalin é o “camarada de ninguém”. Do “generalíssimo Franciso Franco, o Caudilho” é dito que é o “Charlie McCarthy do fascismo”, em referência ao boneco mais famoso do ventríloquo Edgar John Bergen. Em outras palavras, chamavam Franco de Monchito dos ditadores europeus.


Seu autor é William H. Cotton e o mapa foi publicado na revista antifascista Americana Ken, que também publicou vários artigos sobre a Guerra Civil Espanhola de Ernest Hemingway. A revista teve que fechar em 1939 devido ao medo dos anunciantes e após um boicote da Igreja Católica.



6. O mundo em um trevo


O centro dos mapas não tem que ser necessariamente a Europa. De fato, o centro escolhido para cada mapa tem um valor simbólico, o que explica por que a maioria dos mapas medievais se concentra em Jerusalém, como o mapa-múndi da Catedral de Hereford, que foi desenhado por volta do ano 1300 na Inglaterra.


Também ocorre em The Whole World in a Cloverleaf, incluído na coleção de Mode. Embora já seja de 1581 e até apareça um pedaço da América, o mapa é semelhante aos mapas medievais em que Jerusalém também está no centro. No entanto, ele difere em outro aspecto: já está orientado para o norte, enquanto até pouco tempo atrás era comum que o leste estivesse no topo. Isso não é tão estranho se levarmos em conta que o sol nasce ali e que, afinal, a orientação vem do leste. Além disso, o trevo também era uma representação usual da Trindade. Em outras palavras, o mapa, como era o caso dos mapas medievais, não pretende mostrar o mundo como ele é, mas sim reforçar uma mensagem religiosa.



7. Um mapa da Terra (e do Paraíso)


Este mapa de 1681 já é muito mais realista e o mundo parece mais reconhecível do que no mapa do trevo. Mas ele também não deixa de lado a doutrina religiosa: não só aparecem as imagens das escrituras, mas ele também coloca o Éden no mapa onde se acreditava estar. E ele centraliza o mapa no paraíso terrestre do qual Adão e Eva foram expulsos, mesmo que para isso tenha que deixar grande parte do seu lado direito em branco e dividir a América do Norte em duas.


Claro, ninguém sai em busca do Éden só porque esse mapa garante que ele está na Ásia: outro mapa de 1966 o coloca na Flórida. Um ministro batista chegou a essa conclusão “usando os princípios da Teologia e da Relatividade”. Recordemos que os cartógrafos do século XVII ainda não dispunham das equações de Einstein.

A maioria dos mapas “coloca a cultura que os produziu no centro”, como lembra Jerry Brotton em Uma história do mundo em 12 mapas. O que faz sentido não apenas politicamente, mas também praticamente: é semelhante a quando abrimos o Google Maps e a primeira coisa que queremos ver é onde estamos para sabermos qual caminho seguir. É até fácil encontrar mapas com os Estados Unidos no centro. Mas eles não são comuns. Entre outras razões porque esta decisão significa ter que dividir a Ásia em duas.



8. O Sul para cima


Não só o centro pode mudar: também a orientação. Nos mapas judaico-cristãos medievais e até o final do século XV, a Terra era representada orientada para o leste, com a Ásia no topo, a Europa no canto inferior esquerdo e a África no canto inferior direito. E cartógrafos muçulmanos medievais, como al-Idrisi, orientavam seus mapas para o sul, como Brotton também explica.


Há também um mapa contemporâneo muito popular voltado para o sul, no qual a Austrália também está centralizada, que também está incluído na coleção PJ Mode. Já foi dito que isso é típico dos mapas-múndi australianos, mas não é verdade, embora sirva para nos fazer perceber que colocar o norte no topo ou a Europa no centro é uma convenção cartográfica como qualquer outra e que responde a certas necessidades (e às vezes a interesses). Além disso, este mapa não usa a projeção de Mercator, mas a projeção de Hobo-Dyer, que respeita as áreas dos continentes. Claro, ao custo de distorcer as formas das regiões mais próximas dos polos. Nenhum mapa é perfeito: não há solução matemática para projetar uma esfera em uma superfície plana.



9. Um mundo dividido em dois


Outro exemplo da importância do centro são os mapas feitos pelo Americano Richard Edes Harrison durante a Segunda Guerra Mundial e publicados na revista Fortune. Nesse caso, o centro era o Polo Norte, mostrando assim os Estados Unidos contra a URSS. O objetivo do mapa era mostrar tanto a importância do avião no conflito quanto a ameaça que os nazistas representariam para os Americanos se eles invadisse a União Soviética. Deve ser lembrado que este mapa foi publicado antes da entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial.



10. O despertar


Este mapa de 1915 mostra os estados norte-americanos que aprovaram o sufrágio feminino, que se estenderia a todo o país em 1920. Ele foi publicado pela primeira vez na revista Puck, pouco antes do referendo sobre o assunto em Nova York. Essa ilustração (e outras como esta) fez tanto sucesso que gerou problemas financeiros para o movimento sufragista, “porque toda vez que um Estado aprovava o direito de voto para as mulheres, os apoiadores pediam uma versão atualizada”.



11. O mundo de acordo com nossos preconceitos


Os mapas não são apenas uma ferramenta política e de propaganda. Eles também podem ser úteis para críticas e humor. Yanko Tsevetkov publicou o seu Atlas of Prejudice (Atlas do Preconceito) em 2013, no qual mostrou como, por exemplo, Americanos e italianos viam o mundo e, em versões posteriores, até como Donald Trump o via.


Mas há mais exemplos antes dele. Como o Atlas Tory do mundo. Ele é de 1985 e foi incluído em um livro dos autores do programa satírico britânico Spitting Image. Seu objetivo é zombar dos preconceitos dos conservadores britânicos. Assim, a Espanha é Gib (para Gibraltar), em vez de Londres só aparece o bairro chique de Chelsea, a URSS são os “Bastardos Vermelhos”, a Grã-Bretanha é enorme e a Irlanda é apenas o Ulster (chamado Bogland, terra dos pântanos). E isso sem falar nos homens racistas, como Bongo Bongo Land e Pakis. Vários países aparecem como “Não tenho idéia” e “Quem se importa”.

#curiosidasdescartograficas






Fonte: https://verne.elpais.com/verne/2018/04/04/articulo/1522847937_476956.html


Publicado na Página Curiosidades Cartográficas do Facebook em: https://www.facebook.com/curiosidadescartograficas/posts/pfbid0B6vqQCqLmyqRVzkwJPP3v3cJcRszCSVGrFStwd1baZJ6tiXK4z3YkRS4Ky1w28jYl

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